A primeira semana em Uganda

Quando estávamos escrevendo o projeto, tínhamos a certeza de que só conseguiríamos fazer algo efetivo se estivéssemos em Uganda, pois a cultura é outra e muitas questões só seriam compreendidas se vivenciadas. Estando aqui, isso se tornou mais forte. Escrever o projeto atrás do computador é uma coisa, chegar aqui e se deparar com milhões de questões impossíveis de serem planejadas com antecedência, é outra. Esse processo é extremamente rico e já estamos aprendendo muito.

Saímos do Brasil com um ritmo definido: internet sempre disponível, pulinho na geladeira para comer alguma coisa, uma corridinha fácil ao banheiro, uma mesa e cadeira para trabalharmos, tomada do lado e uma certa privacidade. Percebemos, apesar de já sabermos, o ritmo acelerado que somos obrigados a viver. Tudo rápido, não se pode perder tempo, temos que produzir antes de ver, olhar ou sentir. Ao chegar aqui, de alguma forma, vimos que deveríamos quebrar isso, para experimentar cada segundo verdadeiramente. Apesar da enorme vontade de contar as coisas incríveis que estamos vivenciando, nos permitimos esse tempo.

Desde que chegamos fomos muito bem recebidos. O Augustine, fundador de TORUWU, nos buscou no aeroporto. Houve uma pequena confusão no horário, dissemos a ele que chegaríamos as duas da manhã da sexta-feira, mas Augustine pensou que fosse duas da manhã no sábado. Depois, explicou que aqui o dia começa depois das 7h da manhã. Primeiro aprendizado! Chegando no aeroporto, nos recebeu com um enorme sorriso e no carro fomos conversando.

No caminho, começou a clarear, e já pudemos ver um pouco do país que iria ser nossa casa pelos próximos meses: crianças indo bem cedo – sozinhas – na beira da estrada para a escola; mulheres vendendo frutas e os mercadinhos começando a abrir. Havíamos chegado no lugar onde tanto falamos e imaginamos. Agora era pra valer!

Chegamos em Kikajjo quase oito da manhã e o Najib, que mora com o Augustine, veio nos receber. Ele nos levou até o quarto e ajudou com as malas. Comemos uma fruta, tomamos chá e fomos dormir. Acordamos a tarde com a casa movimentada. Vozes de crianças, gente conversando, quando saímos do quarto todos nos receberam como se já fossemos de casa, muitos abraços calorosos. No vilarejo, eles têm um modo de cumprimentar em que dão as mãos e se aproximam como se fossem dar beijo na bochecha, mas não chegam a fazer isso, apenas se aproximam. Nós, acostumados a cumprimentar com beijo de lado, íamos até o final e ficávamos meio perdidos. Rolou até cumprimento com beijo no pastor da igreja, que ficou sem entender nada! Quando eles cumprimentam ficam segurando as mãos por um tempo, e não sabemos quando podemos soltar então ficamos segurando também.

Vilarejo de Kikajjo

A alimentação era uma das nossas preocupações. Além de ser tudo novo, na casa moram muitas pessoas e não sabíamos o quanto poderíamos comer. Um prato de comida significa muito e as refeições são contadas. Com muito esforço o Augustine consegue providenciar três refeições por dia: café, almoço e janta. O intervalo entre cada uma é de mais ou menos sete horas e não há opções de beliscos no meio, além dos pratos serem os mesmos todos os dias. Comemos arroz, um caldo que parece feijão, mas é de amendoim, ensopado de carne e batata doce. Muito bom! A comida é valorizada, não vemos ninguém deixando restos no prato. Percebemos que quando as pessoas querem ser gentis uma com as outras, oferecem algo de comer, como quando fomos buscar água e a senhora proprietária do terreno nos ofereceu abacate e pediu para o seu neto pegar uma jaca da árvore. Em casa, sentamos juntos para comer as frutas dadas de presente, esses momentos se tornam muito mais significativos.

As refeições também são espaços de trocas, temos conversas muito boas. Augustine é um homem inteligente e interessado, nos faz várias perguntas sobre o Brasil e sabe com exatidão dados do nosso país, como taxa de desemprego, renda per capita e dados sobre economia. Dissemos que com ele iríamos aprender sobre Uganda e sobre o Brasil. Também falou sobre a questão do narcotráfico na Colômbia e o plebiscito que teve recentemente; sobre a eleição do Trump e sobre o conflito no Sudão. Ele é antenado e busca sempre se informar, por isso gosta de receber pessoas de fora para trabalhar em TORUWU, é uma forma de “viajar pelo mundo e trocar conhecimento e experiência

Aqui em casa, o balde já estava nos esperando! Em Kikajjo, não há agua encanada ou chuveiro, nós temos um galão de água fria e outro de água quente para tomar banho. A agua é contada, temos que calcular o uso se quisermos ter uma quantia por dia para escovar os dentes, lavar o rosto e as mãos. No primeiro banho usamos a quantidade que estávamos acostumados de sabão e a água do galão se foi pelo ralo. Apesar de já termos uma consciência de economia de água, aqui isso se intensificou. Tomamos banho dentro do quarto, tem um local com um muro e ralo. O banheiro é “casinha”, um buraco no chão. Esse é compartilhado por todos da casa. Logo que vemos o banheiro, a sensação é de estranhamento. Viver cada detalhe da rotina vai nos ajudar a compreender o modo de vida da população e suas implicações.

No final da tarde fomos até a sede de TORUWU, os jovens do grupo de música e dança estavam treinando para se apresentarem no outro dia em Kampala, capital de Uganda. O Augustine nos mostrou o projeto de vinho, em que as mulheres locais produzem – logo falaremos sobre todos os projetos de TORUWU – e o terreno que eles têm para construir a nova escola. É um terreno grande e os olhos do Augustine brilham quando fala da St. Mary. Depois fomos ver a escola no local em que ela está funcionando e na primeira visita já vimos algumas das dificuldades da infraestrutura e sentimos muitas coisas. É difícil ver com os próprios olhos o tamanho das salas que são bem pequenas, o fato de não terem energia e serem pouco arejadas, a quantidade de terra e pó dentro, o local onde são feitas as refeições – que não existe – e a situação dos banheiros, tem muito entulho em volta e, por consequência, muito bicho.

Na primeira reunião que tivemos com TORUWU, relemos o projeto, eles nos contaram sobre dados da comunidade, falamos sobre o que havíamos planejado em aplicar e estabelecemos alguns acordos e metas. TORUWU indicou os pontos que precisávamos ficar mais atentos, a forma de falar com cada público e falou a mesma coisa que a nossa supervisora do projeto, a Profa. Dra. Claudia Stella: estamos lidando com uma população que vive em uma situação de exclusão social e que encontra as suas próprias formas de lidar e superar os obstáculos, e formas muito bonitas, como de cooperação, vida em comunidade e auxílio ao próximo. Dessa forma, deveríamos olhar para essas belezas e não chegar com um olhar viciado de ver apenas problemas e perguntar sobre as dificuldades de forma direta. Quando começamos a nos abrir para o que é bom, vemos que a lista é gigantesca!

Da esquerda para a direita: Marcelo, Elisa, Suzy, John e Augustine

Ao andar pela comunidade, as pessoas lançam olhares curiosos, querem conversar e as crianças nos fazem perguntas como: “o céu no Brasil é da mesma cor que aqui? ”. Às vezes parece que já estamos aqui há muito tempo, cada dia aprendemos algo novo e tem muita coisa que queremos saber. Aqui a gente é mzungos (brancos), e pelas ruas ouvimos isso direto. Somos os únicos do vilarejo. As pessoas que moramos e convivemos todo dia se abriram bastante conosco, parece até que já o conhecíamos. O Najib (18 anos) é incrível com a gente. Está sempre disponível, nos acompanhando e graças a ele conseguimos resolver muitas coisas por aqui. Ele é louco para aprender português, aliás já fala várias coisas, e nos pergunta sobre músicas brasileiras, como Bossa Nova. Ele toca bateria e trombone e sempre nos chama para ver alguma música que aprendeu. À noite, ficamos conversando, rindo ou jogando jogo. Também nos ajuda com a língua local, o luganda. Ele perdeu o pai quando criança e a mãe recentemente, ela era bem próxima da família do Augustine, então o Najib veio morar com ele.

A Jaja é a senhora que trabalha na casa, ela só fala luganda, mas já conversamos um monte. Quando nos vê, começa a falar e respondemos com mimicas ou gestos, aos poucos ela vai nos ensinando a língua. Ela é muito sorridente e atenciosa. A Rose e a Gift, netas dela, fazem nossos dias em casa mais felizes. A Gift tem 4 anos e no primeiro dia já nos apegamos a ela. Ela é muito engraçada e tem uma energia que não acaba. Ela vai as sete da manhã para a escola e as onze da noite ainda está falando sem parar. A gente se diverte! A Rose tem 12 anos e é muito curiosa sobre tudo. Ela que nos fez a pergunta sobre o céu no Brasil. Também nos perguntou como são as ruas no Brasil, como lavamos a louça, se temos irmãos e irmãs, ela fala que quer viajar e conhecer muitos países. O pai faleceu e a mãe mora em outro vilarejo aqui próximo, nós a conhecemos, ela é muito gentil, as meninas adoram quando ela está por perto, porém morando com o Augustine elas conseguem frequentar a escola (St. Mary) e por isso ficam em Kikajjo com a Jaja.

Jaja preparando o almoço
Elisa e Gift

A Faith tem 14 anos e é um pouco mais tímida. Aos poucos foi se soltando, mostrando como é carinhosa. Sua mãe está doente, então o Augustine a acolheu em casa. Ela fala de sua mãe com muito amor e quer nos levar um dia para conhecê-la. O Jimmy, de 20 anos, é outra figura. Ele também é mais quieto no começo, faz um tipo tímido-sarcástico. Às vezes está quieto, daí solta uma piadinha que faz todo mundo rir. Ele perdeu o pai recentemente e agora cuida da casa e dos dois irmãos mais novos. Ele mora relativamente próximo da casa do Augustine e é muito amigo do Najib, então sempre está aqui com a gente. Essas são as pessoas que passamos o dia a dia, mas já conhecemos muitos outros jovens e crianças que nos encantaram e, voltando da escola, passam aqui para nos dar um “oi” ou um abraço que nos fazem ganhar o dia.

Faith e Rose
Da esquerda para a direita: Najib, Marcelo e Jimmy
Suzy, Gift e Faith

Quando nos aproximamos dessas pessoas, muitas questões vão tomando conta de nós. Ainda precisamos de tempo para nos aprofundar nos assuntos e vamos compartilhar com vocês aos poucos. O nosso objetivo é fazer perguntas e refletir, ainda não queremos e nem temos o direito de dar respostas.

Uma coisa é a questão do trabalho infantil. Ver a Rose, a Faith e mesmo a Gift, de 4 anos, responsáveis por fazer o jantar, limpar a casa, ir pegar água com galões pesados (que às vezes nós não conseguimos carregar), de fato gera um incômodo muito grande e pensamos nos direitos humanos. Ao mesmo tempo, ao ver a Rose, depois de ter voltado da escola, ajudando nas tarefas do dia porque seu irmão mais novo está doente e que ela não vai deixar de ajudar a família, nos faz refletir sobre a dimensão do problema.

As crianças na comunidade parecem andar “soltas”, brincam em lugares insalubres e com objetos cortantes. Conversando com o Augustine e Sophie compreendemos que elas não estão na “rua”, no sentido que nós damos a isso, mas protegidas pela vizinhança. Ambos ficaram assustados quando dissemos que não conhecemos nossos próprios vizinhos no Brasil. O vilarejo é o território delas e por mais que na nossa visão não tenha ninguém as olhando, na verdade todos se responsabilizam pelas crianças. Como a senhora que comentamos acima, proprietária do terreno onde se pega água, as crianças chamam ela de Jaja – mesmo nome que chamam suas avós – e ali para elas é um ambiente seguro, mesmo longe de suas casas. Elas sentam, conversam, sobem nas árvores, brincam em um lindo e poético balanço de cipó.

Voltando ao começo do texto, não imaginávamos já viver tanto na primeira semana. O projeto tem as etapas definidas, mas o planejamento deve estar flexível a prática. Quando dizemos que o ritmo é outro e que precisamos ir com calma, não quer dizer que aqui é parado e tranquilo, mas no que se investe tempo é diferente.

Estamos seguindo à risca um dos propósitos do projeto: a imersão. Temos registros diários que queremos muito compartilhar e aos poucos passaremos por aqui. Podem ter certeza que muitas coisas interessantes virão, mas para garantirmos a qualidade do projeto, o mais importante agora é estar presente aqui de alma e coração. Iremos postar fotos, acompanhem o nosso Facebook e Instagram, e se tiverem algum assunto especifico que queiram saber mais, nos mandem para que possamos organizar os posts em cima disso também.

Estamos muito felizes e cada dia que passa temos mais certeza de que fizemos a escolha certa de nos permitir viver essa experiência em Uganda!

Moradores da casa