O que significa vivenciar a comunidade?

A primeira parte do nosso projeto foi dedicada a aproximação com a comunidade, como já enfatizamos em diversos momentos. Mas o que significa essa aproximação e quais as atividades envolvidas nesse processo? Vamos compartilhar com vocês a linha que seguimos e o que fizemos nesse um mês e meio em Uganda.

O projeto tem como base a psicologia social comunitária, que diz que a demanda do trabalho a ser realizado pelos profissionais deve vir da população com que se trabalha. Para isso, é preciso estar disponível para essa população: estar perto, ouvir, acolher e iniciar juntos um processo de reflexão que repense formas consolidadas de exclusão e pobreza, mostrando que esse estado não é natural, e sim, resultado de um sistema que inclui uns e exclui outros.

E para conseguir ser aprofundar nesses assuntos é preciso criar vínculo com a comunidade que, no nosso caso, tratando-se da escola, significa mais especificamente os(as) alunos(as), familiares e os(as) professores(as). Porém, o trabalho envolve diversas dimensões e se concentrar nesses três públicos inclui olhar as lideranças locais, os outros moradores e entender questões econômicas, políticas e sociais. Por isso, a todo momento, estivemos presentes e atentos ao que a comunidade nos tem falado. O estar junto deve ser com um olhar e escuta pautados nos sujeitos como seres únicos e com potencialidades próprias, e também como sujeitos sociais e as questões que modelam modos de vida e comportamentos, como crenças religiosas, de gênero, influencias oriundas da colonização e mídia.

Mas vamos falar da prática! O que significa tudo isso, então? Significa, em um primeiro momento, participar das atividades que já estão estabelecidas no dia a dia da comunidade. Estamos em uma zona rural e vemos que as relações humanas são bem próximas, assim como o valor dado a uma companhia é grande. Poucas pessoas têm celular e acesso à internet e vemos que há uma preservação do encontro pessoal. Todos os convites que foram feitos a nós, como ir em cultos ou outros eventos sociais, como aniversários, visitar algum parente ou os acompanhar até em casa, nós aceitamos.

Os acompanhar em eventos religiosos, por exemplo, tem um grande significado, pois a religião é muito presente na comunidade. Essa é uma atividade já estabelecida, um momento que todos se encontram, vestem suas melhores roupas. Quando passamos a fazer parte disso e a frequentar um ambiente que para eles é comum e sagrado, passamos a ser acolhidos e ter mais intimidade. Ao mesmo tempo, é fundamental para entendermos como a religião permeia as relações cotidianas e questões especificas dessa comunidade. No caso da educação, há uma influência direta, pois ela direciona como os familiares e professores devem agir com as crianças dentro de casa e na sala de aula.

Uma das questões importantes é também estar presente nos momentos de descontração, como se reunir na frente da nossa casa – a residência do Augustine. A mesma já era um ponto de encontro e referência para a comunidade, então aproveitamos esse fato. Rir junto ao outro é uma forma de quebrar barreiras e já temos alguns exemplos de como isso se refletiu na nossa relação com as pessoas aqui.

Reunidos em frente de casa fazendo os preparativos para o aniversário da Gift

Por exemplo, o Marcelo foi convidado pelo Alan, umas das crianças da comunidade, a acompanhá-lo no dia de visitação dos pais em sua escola, como seu “responsável”. A relação dos dois começou com o Alan visitando ocasionalmente a nossa casa e ambos se divertindo juntos jogando bola e escutando música. Agora, o Marcelo conhece a família do Alan, visitou a sua casa e pode conhecer a realidade de uma nova escola e aprender muito durante esse processo; a Sophie, uma jovem de 15 anos, também conhecemos nas nossas idas a St. Mary, que se aproximou da Elisa e traz muitas questões sobre futuro, gênero, liberdade de escolha do jovem, sonhos. Essas pessoas e tantas outras fazem parte da nossa vida agora e nos trazem visões sobre fatores que só temos acesso ao estabelecer um vínculo e uma relação de confiança. Elas vão nos conhecendo e nós a elas. E estamos tendo aula de luganda, a língua local, para conseguirmos nos comunicar melhor com as pessoas, pois nem todas falam inglês. Vemos que quando nos cumprimentam e nós respondemos em luganda, é uma forma de quebrar o gelo e gerar uma empatia de imediato.

Outra atividade principal que fizemos foi acompanhar diariamente a St. Mary. As crianças de 3 a 6 anos estudam na Nursery Section (relativo ao nosso jardim de infância), que engloba as séries Baby, Middle e Top Class. A partir dos 6 anos, ingressam na Primary School (relativo ao nosso Ensino Fundamental), que vai do Primary 1 ao Primary 7 (P1 ao P7). No entanto, a St. Mary vai até o P5, pois não tem estrutura – recursos financeiros, professores, salas – para ter as séries P6 e P7.

Conhecemos os(as) professores(as) e alunos(as), no começo algumas salas estavam sem professores, pois estes tinham que se dividir entre duas séries. Os alunos nos chamavam para dar aula e fizemos atividades com eles de leitura, mostramos aonde era o nosso país e desenhamos o Mapa Mundi na lousa, ensinamos português e eles nos ensinaram luganda. Também demos aula de matemática, inglês, geografia, tudo o que os professores nos pediam nós fazíamos. Assistimos aulas em todas as séries, nos revezamos para cada dia um acompanhar uma turma, de forma que nossa presença não fosse intimidadora – e também não cabia nós três dentro da mesma sala. Dessa forma, cada um se aproximou daquele que sentiu mais afinidade e de certa forma todos foram contemplados.

Tivemos a dimensão das condições que as crianças estudam. Algumas vezes era difícil ficar muito tempo dentro das salas por causa do calor, cheiro do banheiro e do lixo, pó e mosquitos. Não há apagador nas classes e as crianças trazem de casa esponjas para usar para apagar; não há papel higiênico, não há lugar para beber água, nem local para lavar a mão.

Alunos(as) da St. Mary entre os intervalos das aulas

Por estarmos dentro da sala de aula, criamos um vínculo inicial com os(as) professores(as), fator que consideramos essencial, afinal eles(as) são os que trabalham com as crianças todos os dias. Os(as) professores(as) precisam ter seu lugar de fala e nós necessitamos compreender o que eles nos falam e ver como essas questões influenciam no seu trabalho dentro da sala, pois o que as crianças vivenciam na escola elas levam para as suas vidas. A Suzy em algumas sextas feiras acompanhou os(as) professores(as) até o escritório de TORUWU, subiu com eles na árvore para pegar jambula (tipo uma jabuticaba), colheram couve orgânica, conversaram e riram sobre assuntos diversos, aproveitando juntos o fim de tarde depois de uma semana de trabalho.

Festa de aniversário com os(as) professores(as)

Todo o processo nesse um mês e meio nos mostrou como estar disponível ao outro faz diferença. Não somos nós apenas olhando para eles e os escutando, eles também olham para nós e o processo é uma via de mão dupla: ambos juntos vendo, vivendo e repensando muitas questões. Agora iremos iniciar uma nova etapa do projeto, que inclui grupos com os(as) professores(as) e organização das visitas domiciliares para aproximação com as famílias. Estamos a todo o vapor! Até o próximo relato!